quarta-feira, 2 de março de 2011

A CASADA INFIEL - Federico Garcia Lorca





A Casada Infiel

Levei-a comigo ao rio, 
pensando que era donzela, 
porém já tinha marido. 
Foi na noite de Santiago 
e quase por compromisso. 
Os lampiões se apagaram 
e acenderam-se os grilos. 
Nas derradeiras esquinas 
toquei seus peitos dormidos 
e pra mim logo se abriram 
como ramos de jacintos. 
A goma de sua anágua 
soava no meu ouvido, 
como uma peça de seda 
lacerada por dez facas. 
Sem luz de prata nas copas 
as árvores têm crescido, 
e um horizonte de cães 
ladra mui longe do rio. 


Passadas as sarçamoras 
os juncos e os espinheiros, 
por debaixo da folhagem 
fiz um fojo sobre o limo. 
Minha gravata tirei. 
Tirou ela seu vestido. 
Eu, o cinto com revólver. 
Ela, seus quatro corpetes. 
Nem nardos nem caracóis 
têm uma cútis tão fina, 
nem os cristais ao luar 
resplandecem com tal brilho. 
Suas coxas me fugiam 
como peixes surpreendidos, 
metade cheia de lume, 
metade cheia de frio. 
Percorri naquela noite 
o mais belo dos caminhos, 
montado em potra de nácar 
sem bridas e sem estribos. 
Dizer não quero, homem sendo, 
as coisas que ela me disse. 
A luz do entendimento 
me faz ser mui comedido. 
Suja de beijos e areia, 
trouxe-a comigo do rio. 
A aragem travava luta 
com as espadas dos lírios. 
Portei-me como quem sou. 
Como um gitano legítimo. 
Uma cesta de costura 
dei-lhe de raso palhiço 
e não quis enamorar-me 
porque tendo ela marido 
me disse que era donzela 
quando a levava eu ao rio. 

Federico García Lorca, 
in 'Romanceiro Gitano' -1928