domingo, 5 de fevereiro de 2012

Uma homenagem a minha tia AMALIA FANAIA, por Paulo Zaviasky



Adeus Amália Fanaia








O título inicial deste comentário seria “As manhãs de nossos domingos” que, infelizmente, tive que trocar e adaptar tão de repente.

Corria o ano de 1953. Fiz concurso público para locutor da fantástica Rádio A Voz d´Oeste. Tinha 13 anos. No ano seguinte recebo a notícia de que eu junto ao Eugênio de Carvalho e Albiere Fortes tínhamos logrado os primeiros lugares.

Um sonho de guri realizado. Lá, além do gostoso emprego, estaria bem perto de meus maiores ídolos do extraordinário Rádio de ontem.

Augusto Mário Vieira, rádio-jornalista do famoso, debatido, polêmico Rádio-Jornal “Bandeirantes No Ar”, de todas as manhãs, às nove horas, junto com Ana Maria do Couto, “May”, também saudosa e corajosa, uma das primeiras locutoras daquela época, ao lado, nos microfones sagrados da pioneira-eterna, da mãe de nosso herói cuiabano, prefeito Roberto França, a também excelente locutora Maria Ignêz França Auad, nossa tão querida Promotora de Justiça, também pioneira, aposentada...

Tudo já aqui bem pertinho, mais recente, na esquina de nosso tempo...

Um fora de série como Alves de Oliveira e seus noticiários e a famosa “Crônica das Doze e Cinco; o vozeirão do Adelino Praeiro que mesmo, agora, após seus quarenta anos de idade, proporcionou aquela agradável surpresa no dia do lançamento do “DATA-DIÁRIO” ao me fazer estufar o peito de orgulho de nossa geração ao mostrar ao público irrequieto o poder de sua voz, poder do passado/presente, mostrando o que é pulmão bem cuidado e treinado que transbordou o presente com o passado de seriedade e técnica e que fez muitos até ficarem quietos ou com vergonha...

Um José Rabello Leite e seu programa “Caleidoscópio Feminino”... Mas, o que Alves, Adelino e Rabello mais conquistaram foram as manhãs de nossos domingos com o maravilhoso programa que ousei e honrei participar quantas vezes, o “Domingo Festivo Na Cidade Verde”. Sabem lá o que é um garoto de 14 anos ao lado de seus heróis, como da “Turma do Morro”, de um Juarez Silva, A Voz de Ouro ABC-Nacional, de uma orquestra de dar inveja, a do Maestro Cadorna Augelli, da cantora de quilate, que nunca mais ouvi falar nela, Jacy Amorim (como gostaria de alguma notícia sobre ela), semelhante à “sapoti” Ângela Maria e a belíssima Amália Fanaia, entre tantos outros heróis desse passado recente?

Amália Fanaia tão linda quanto excelente cantora!

Chamou-me de colega um dia, ao vivo e à cores. Aquele ano de 1954 nunca me saiu da cabeça.

Passou o tempo. Passei a usar calças compridas. Muita coisa mudou. Porém, as imagens do passado são sempre reais. Há u’a mágica que ninguém explica - a metáfora do tempo é a realidade!

Amália Fanaia era orgulho de seu pai, “seo” Ninô, meu colega no Banco do Brasil. Sua mãe, Lysia Fanaia, até hoje sente saudades do “Ninô” que partiu...

Sua foto de cantora de sucesso pela voz e pela beleza conquistou momentos de glória inesquecíveis. Uma geração inteira me pediu que conquistasse um autógrafo dela. Rádio era Rádio. Época de Ouro. E Amália sempre fora Amália Fanaia. Sua mãe, Lysia, continua mixtense rôxa(mixtense com “X” e rôxa com circunflexo e “X” também).

Com apenas 62 anos, anteontem, entrou sorrindo no hospital, ao lado de irmãs, filhos, netos e bisnetos – sua mãe, Lysia, ficou em casa rezando apenas - para colocar um simples marca-passo coronário a fim de melhorar sua perfomance na arrumação de sua casa cuiabana/moderna, sem canseira. Foi velada numa funerária local e seu enterro fora anteontem mesmo, nesta sexta-feira.

Como não dá para continuar e nem reler, deixo as vírgulas e os erros ortográficos para que a nova geração dos professores de Deus apenas saibam o quanto dói encerrar um espetáculo, puxando as pesadas cortinas de veludo vermelho de um teatro pomposo, lindo, magistral cujo exemplo de vida familiar e artístico moldou a vida de tantos fãs de nossa infância...

“-Senhoras e senhores, com vocês, aplaudida em pé, a linda presença da Miss Amália Fanaia e sua voz, interpretando, neste magnifíco Anfiteatro do Colégio Estadual de Mato Grosso, a música “Cuiabá de meus amores” (gravação original em meu poder com as vozes de Rabello Leite e Alves de Oliveira)...

Eu era guri demais e não entendia muito sobre amores, porém, sempre me disseram que ela despedaçou corações pela vida afora. Adeus, amiga, colega e artista de verdade que fez e participou de nossa verdadeira história da arte cuiabana.

E, o espetáculo continua.



* PAULO ZAVIASKY, radialista na época de ouro do rádio.




http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=149249