segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A ignorância pode levar a esquizofrenia

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"Oi, pessoal da ATEA. Eu sou agnóstico e acho saudável deixar isso claro sempre que necessário. Mas neste relato, especificamente, gostaria que preservassem-me anonimamente porque se tratam de vivências profissionais e uma vez meu nome divulgado, ficaria fácil deduzir a identidade dos demais personagens.

Eu sou professor de linguagem e, em uma aula recente, explorei a história das línguas e sua e
volução ao longo de vários séculos - um processo demorado e complexo. Expus informação sobre o desenvolvimento de representações simbólicas pelo homem primitivo, da maneira como a humanidade interpretava o mundo ao seu redor com símbolos, com a finalidade de situar o aparecimento da escrita, que é linguagem simbólica - um domínio exclusivamente humano entre os seres vivos. Eventualmente a exposição abordou o surgimento de mitos e deuses a partir da observação e interpretação simbólica da natureza, do céu, dos astros e do clima.

O comportamento de uma aluna que permaneceu o tempo todo olhando em outras direções, visivelmente incomodada, me chamou a atenção. Perguntei à sala se as ideias estavam claras ou se pareciam confusas demais, obviamente dando a ela a chance de se manifestar, mas recebi apenas sinalizações positivas, de outros alunos, bem como manifestações de interesse e entusiasmo pelas informações. Perguntei, então, se poderíamos prosseguir, a que ela finalmente se manifestou com um "não".

Pedi pra que ela dissesse porque não deveríamos e sua resposta foi algo parecido com: "porque não tá interessante. Pra acreditar nisso eu vou ter que engolir que viemos do macaco, e segundo a minha religião, Adão deu nome às coisas logo no início, sem ter passado por essas coisas todas que você tá falando. Então se você puder parar, eu confesso que acharia melhor". Em nenhum momento falamos ou sequer mencionamos "macaco" e a origem biológica do homem, o que me obrigou a pedir esclarecimentos: "como não estamos falando sobre biologia, área que eu não domino, não me lembro de termos falado sobre descendência de macacos. O que exatamente você ouviu de mim sobre isso?" a que ela respondeu: "não lembro mais, mas essa coisa toda de homem das cavernas são coisas que não fazem sentido pra mim, eu não acredito, não tem nexo!"

Tive que me dar ao trabalho de justificar a aula, um constrangimento dispensável, enquanto controlava o sangue que tende a ferver em minhas veias quando testemunho uma tentativa de silenciar vozes. Naquela situação, era alguém que pretendia silenciar a voz científica dentro de uma instituição acadêmica de ensino, e pretendia que essa instituição legitimasse o discurso religioso e, considerando que os discursos religiosos são múltiplos, pretendia que eu, professor, legitimasse o discurso específico dela!

Expliquei, num esforço de paciência: "eu sou professor e esta é uma instituição acadêmica, que tem uma responsabilidade social voltada para o ensino e a pesquisa. A minha responsabilidade profissional, prevista no cargo público que eu ocupo, é a de oferecer perspectivas, oferecer informação diversificada e zelar pela plausibilidade do que se aprende aqui. É também de proporcionar oportunidades de confrontar perspectivas, estimulá-los a buscar o coerente e o plausível na multiplicidade de ideias. Não é minha função limitar informações ou protegê-los da tarefa de confrontar perspectivas. Eu estaria sendo irresponsável! Aqui, não se encontram verdades impostas. Aqui, nós temos a obrigação, às vezes incômoda, de debater tudo em busca de coerência".

Nas aulas seguintes e até então, essa aluna não olha na minha direção, e faz questão de se ocupar de outras coisas durante minhas aulas, como manifestação de contrariedade ao 'professor anticristo'."

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