terça-feira, 30 de outubro de 2012

Por que Religiões não assumem seu caráter escravista?

Encontrei este artigo no blog "Ateu Porque o Inferno é Piada". Há algumas passagens e palavras que eu não usaria no meu blog por que não concordo com elas, mas mesmo assim decidi republicar o texto aqui por causa da racionalidade pertinente das ideias do escritor que expõem bons argumentos sobre o caráter escravista das religiões.

Religiões, de uma forma geral, não gostam de assumir o caráter escravagista delas

Religiões, de uma forma geral, não gostam de assumir o caráter escravagista delas. Quando falo escravidão me refiro ao fato de nós, pobres e toscos mortais, estarmos subordinados a alguma entidade mágica, de forma que tal entidade faz o que quer e bem entende e nós temos que seguir, de forma irremediável.

Acontece que escravidão não é uma coisa legal, e religiosos procuram arrumar um subterfúgio para dizer que a sua religião não é ruim e que não há nenhum tipo de escravidão. Dizem que as pessoas são livres e daí surgiu o estúpido conceito de livre arbítrio. Não que ter liberdade de escolha seja ruim, muito pelo contrário. O problema reside num paradoxo religioso, pois eles insistem que o deus particular (os outros são falsos. Só o SEU é que é verdadeiro) é poderoso e decide quem o seguirá e receberá recompensas. Para pessoas racionais, o problema fica evidente; para quem apenas acredita, não há nada de errado. Vamos examinar isso de perto.

O conceito de liberdade frente às religiões, é algo sem sentido. Percebam: você tem o direito de escolher não seguir um deus, só que se não o fizer – independente do tipo de pessoa que você seja – você será condenado a penas eternas. Assim, levando em conta a brevíssima vida que temos, teremos uma eternidade inteira pela frente de dor e sofrimento. Isso é justo? Mesmo que eu seja uma pessoa boa, que ajude ao próximo, que não acumule excessivos bens materiais, que lute pelos desesperançados, que faça por onde ajudar a melhorar a vida dos outros, pouco importa. O crime mortal de escolher não seguir um deus me condenará à penas horríveis. Enquanto isso, o pastor ladrão, o padre pedófilo, o pai-de-santo safado, a cigana estelionatária, o muçulmano terrorista etc., todos gozarão da Vida Eterna em esplendor porque eles seguiram um livro religioso. Deus é amor? Que amor é esse?

“Mas Deus nos avisou.”

Avisou? Quando? Não me lembro de ele ter aparecido. Eu ouvi alguns seguidores dizendo assim, assado. Mas o que os seguidores de uma religião pregam é o mesmo que membros de OUTRA religião, que rezam para OUTRO deus pregam. Como saber QUAL DEUS é o verdadeiro? Isso é algum tipo de roleta russa divina, onde você sempre perde? Parece.

Cristãos sempre saem com o argumento que as pessoas são responsáveis pelos seus atos e arcarão com sua responsabilidade. Mentira! Uma prova cabal que não há tal liberdade é a própria Bíblia que cristãos não leem. Eles sempre dizem que todos os joelhos se dobrarão perante Deus e coisa e tal. A citação completa está em Filipenses cap. 2:

5. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
6. Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deusa,
7. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
8. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
9. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
10. Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,
11. E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

a Como ele não teve por usurpação ser igual a Deus se ele era Deus? Obviamente, não espero que religiosos expliquem isso.
b Também não espero que expliquem o que é esvaziar-se em si mesmo.
c Mentira, pois ele mesmo reclamou na hora dizendo “Eli, Eli, lamá sabactâni”/”Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27: 46 ; Marcos 15:34)
d Deus exaltou a si mesmo?

Os versículos deixam claro uma coisa: TODOS os joelhos se dobrarão perante Jesus. Sem exceção, independente do que seja ou o que aconteça. Toda língua confessará que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus. Por que Deus precisa que confessem isso para se sentir glorioso, é algo que não consigo entender, nem os religiosos, mas eles estão acostumados a aceitar qualquer coisa sem questionar, de qualquer forma.

Onde está o livre arbítrio? Eu não posso escolher NÃO CONFESSAR que Jesus é o senhor de coisa alguma? Eu SOU OBRIGADO a fazer isso? Onde está a minha escolha que dizem que tenho? A explicação vem a seguir, neste mesmo capítulo, bem nos versículos seguintes:

12. De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor;
13. Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.
14. Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas;

Versículo 12: Ameaça. Você deve ter medo, trema! Obedeça-me, pois ou meu Deus te fará sofrer de maneira horrenda!
Versículo 13: Não pense que você toma alguma decisão. Deus é quem decide o que você faz. Mesmo que você não acredite neste deus, é porque ele FAZ você não acreditar. Para quê? Para te punir depois.
Versículo 14: Cale-se! Você é escravo de minha vontade. Meu Deus disse que você deve me obedecer, como falei acima. Não reclame, não murmure, aceite seu destino miserável ou não importa, pois Deus é que comanda sua vontade.

Resumindo: as pessoas são marionetes e Deus, enquanto puxa as cordas, as ama tanto quanto um ventríloquo ama um boneco de madeira. Mas ao final do show, o boneco vai para uma caixa e ficará lá até seu dono resolver brincar com ele novamente.

Mas religiosos teimarão até à morte que temos liberdade de ação. Temos? Ok, vejamos, eu me recusei a ter Jesus no meu coração e em qualquer outra cavidade do meu corpo. Assim, eu estou destinado a ter sérios problemas daqui pra frente. Tomemos o caso do Haiti. As pessoas escolheram morrer de forma bárbara naquele terremoto? Bem, teve tosco que falou que era por causa da macumba. Cristãos estão ilesos? Zilda Arns morreu dentro de uma igreja, a casa de Deus, sendo que ela era freira. De repente, era porque ela não era evangélica. Tão evangélica como as pessoas que morreram no desabamento da igreja Renascer.

“Mas eles estão sentados ao lado de Jesus.”

Preciso mesmo comentar isso?

Tomemos a primeira punição: Adão e Eva (estamos no folclore judaico, tomado emprestado pelos cristãos). Para chegarmos a isso, temos que voltar um pouco no tempo.

Javé, num certo espaço de tempo – antes de existir o tempo, propriamente dito – resolveu criar o mundo. Seu poder é imenso, sua sabedoria é vasta e seu conhecimento transcende a realidade, podendo “ver” as coisas de maneira não-linear. Em outras palavras, tudo está ocorrendo ao mesmo tempo perante os olhos de Deus. Dessa forma, ele tem conhecimento do presente, passado e futuro, independente das possibilidades. Ele é Deus e nada supera seu poder.

Muito bem, Deus cria o mundo SABENDO que criaria a humanidade (não estou preocupado com o “porque” disso, posto que não é relevante para esta discussão). Deus SABE que a humanidade surgirá de Adão e Eva, pois ele criará Adão e Eva. Como sua percepção é não-linear, ele sabe TUDO o que vai acontecer. Ele cria uma Árvore do Bem e do Mal para pôr no Eden. Para quê? Para testar Adão e Eva, sendo que ele SABE o que vai acontecer. Assim, por que ele põe a droga da árvore lá? Para testar. mas para que ele precisa testar? Bem, Eva faz Adão comer o fruto. Ok. EPA! Ok, não! Ela só fez Adão comer porque a serpente induziu ela a comer. Mas Deus deveria saber que a Serpente faria isso. Em outras palavras: se Deus não tivesse colocado a árvore lá NEM tivesse criado a Serpente, Adão e Eva ainda estariam no Paraíso até hoje.

Se levarmos Filipenses ao pé da letra (e a Bíblia proíbe que se altere o sentido das palavras), a Serpente fez o que Deus queria e tentou Eva. Eva fez o que Deus queria e deu o fruto a Adão. Adão fez o que Deus queria e comeu a droga do fruto.

Façamos um experimento mental (é apenas mental, eu não sou psicótico para realizá-lo de modo real). Eu coloco uma criança e digo: “Coloquei um doce em cima da mesa. NÃO COMA O DOCE!”

Sento e fico observando.

Minha mulher chega e fala pra criança: “Vai lá e pega o doce”. A criança, lembrando o que falei, dirá que não. Minha mulher insiste: “Não, pode ir lá comer que não acontecerá nada”. Eu ainda estarei observando cada passo dos acontecimentos, sem perder nada.

De tanto minha mulher insistir, a criança vai até o doce e o come. Eu apareço de sopetão e começo a bater na criança com uma vara de marmelo. Xingo, bato, machuco e a jogo porta afora, condenando uma criança pequena a enfrentar o mundo sozinha.

O que o Conselho Tutelar pensaria disso?

Outro experimento mental: Eu vejo um cristão atravessar a rua, mas eu percebi que vem um carro em alta velocidade. Eu tenho como chegar a tempo e empurrá-lo (ou puxá-lo) para fora da pista. Se eu fizer isso, interferirei no livre arbítrio dele de andar no meio da rua. Ninguém mandou ele ser relaxado e não olhar direito pra saber se vinha carro. Logo, o mais lógico seria ele arcar com sua ação, certo? Se eu parar e ver o atropelamento sem dar nenhuma assistência, nem mesmo depois do acontecido, com várias testemunhas certificando que eu PODIA ter impedido, que eu tinha PODER para impedir a tragédia, o que elas falarão? Lembremos que tudo são ações de Deus. Isaías cap. 45 disse que todo o mal e todo o bem provem de Deus. Logo, ele é que decide o que vai acontecer. Omissão de socorro? Mas eu não fiz nada, não fui eu quem disse pro cristão andar despreocupadamente pela rua nem era eu que estava no volante.

Fica-se a pergunta: Por que existe o mal? Por que pessoas sofrem. Por causa do livre arbítrio? Mas Isaías disse que o mal feito pelo próprio Deus. Filipenses disse que todas as nossas ações são obra de Deus. Onde fica a responsabilidade dele? Assim, ele faz por pura maldade.

Terceiro experimento mental: Eu pego um pastor evangélico, padre pedófilo ou pai-de-santo estelionatário e os amarro. Se algum deles conseguir se safar, a explicação está em duas alternativas:

1. Ele(s) se soltou(aram) porque eu não foi eficiente em amarrá-los direito.
2. Ele(s) se soltou(aram) porque eu permiti.

Assim, eu não tenho capacidade de contê-los OU não tenho a intenção de contê-los presos. Dessa forma, se eles escapam, é por minha culpa, em cada uma das duas hipóteses. Se eu fosse o melhor amarrador do mundo, com poder infinito, eles JAMAIS poderiam fugir. Dessa forma, ou eu sou um incompetente para amarrar salafrários, ou sou um canalha por permitir que eles fujam.

Para os calvinistas, não existe o livre arbítrio, existe predestinação. Ou seja, você continua sendo uma marionete e nem a falácia que você tem liberdade de tomar decisões lhe cabe. Eu não sei como alguém consegue viver assim, baixando a cabeça, mas também devo admitir que é o mais próximo ao que diz na Bíblia. Tudo foi pré-determinado, não há como fugir! Deus escolheu todos os seus sofrimentos e nem você nem ninguém poderá impedir isso. As amarras estão bem presas e você está completamente escravo de uma decisão superior e não lhe cabe reclamar ou mesmo murmurar. Só lhe cabe o desespero.

Não, o conceito de livre arbítrio não coaduna com o de omnisciência e omnipotência (características divinas), restando o paradoxo de Epicuro:

Para Deus e o Mal continuarem existindo ao mesmo tempo é necessário que Deus não tenha uma das três características.

Se for omnipotente e omnisciente, então tem conhecimento de todo o Mal e poder para acabar com ele, ainda assim não o faz. Então, Deus não é bom.

Se for omnipotente e benevolente, então tem poder para extinguir o Mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto Mal existe, nem onde o Mal está. Então, Deus não é omnisciente.

Se for omnisciente e bom, então sabe de todo o Mal que existe e quer mudá-lo. Mas isso elimina a possibilidade de ser omnipotente, pois se o fosse erradicava o Mal. E se, Deus não pode erradicar o Mal, então, Deus não é omnipotente.

Se ele não é omnipotente, omnisciente e/ou bondoso, por que chamá-lo de “Deus”? 

Fonte: Ceticismo.net